Thursday, June 14, 2012

Em paz *


Lembro-me de um passado, relativamente, recente em que tudo era, radicalmente, diferente.
Emoções profundas esquecidas na linha do tempo.
Pessoas com vida, mortas agora pelo abismo que, aos poucos, se foi construído.
Momentos radiantes, vistos pela sombra de quem os deixou para trás sem nenhuma intenção intencionada. Por medo, por impossibilidade de manutenção dos mesmos, por, por, por… Tic-tac tic-tac…
O toque: O que fica. Sentido da mesma maneira em qualquer um dos tempos, com um extra de nostalgia a cada dia que passa. 

Uma realidade que já fez sentido outrora, hoje parece-me estranha.
Uma palavra que mudou tudo, um passo que fez a diferença, uma decisão que podia ter sido melhor.  Ou não.
Um mundo, em suma, igual mas tão diferente. Um caminho traçado e acabado… Alguns dizem pelo destino, outros dizem pela sorte, ou pelo azar.  
Traçado e acabado. O passado é história. A história já foi. O que fica é a nostalgia. Talvez de não puder agarrar tudo: O melhor das pessoas. Não é permanente, vai e vem, vai e vem. Não é fixo. Porque as pessoas não são sempre boas, o melhor delas não existe sempre. E então para isto existe uma palavra chamada saudade.
Mesmo que o conteúdo dela não signifique o querer de volta o que já não existe. Por vezes o único significado é transcendente à vontade de qualquer um de nós, por vezes, é só lembrar e sorrir. Um sorriso genuíno de uma realidade que sabemos que não irá voltar, fazemos tréguas e ficamos em paz com isso e é uma saudade boa. Uma lembrança de um passado recheado de coisas boas que a vida não quis que se fixassem no tempo. E eu acho que a vida tem razão. A vida tem sempre razão. Porque se ela não tivesse eu já tinha feito alguma coisa, eu já tinha dado um passo, eu já tinha gritado pelo passado e já tinha ajustado contas com ele. Porém, a vida tem razão. E as contas, não existem para quem não gosta de matemática. Só palavras, todas lindas e maravilhosas que nos permitem saltar de tempo em tempo e sermos, sempre, aquilo que queremos ser. Eu acredito que podemos, sempre, ser aquilo que queremos ser. E logo fazer aquilo que queremos fazer. Portanto, o que não foi, o que não aconteceu, alguém não quis que acontecesse. Estou por isso em paz. Com a vida, com o passado e com toda a gente que fez parte dele.   

A pomba branca pousa ao pé de mim, eu esboço um sorriso e deixo-a voar para longe: estar em casa é estar em paz.

Wednesday, May 23, 2012

A real diferença

É uma merda. Eu explico-te o que é uma merda:  É a treta da diferença de filosofias de vida, a diferença de carácteres, a diferença de espíritos, de almas, de essências, daquilo que é a única coisa que realmente importa. 
  Tudo o resto pode dar resultado, pode trazer muita alegria mas quando este aspecto específico falha, aos poucos e poucos, começa tudo a falhar. 
Isto é o que a maioria das pessoas ainda não percebeu: que podem ser diferentes em tudo e mesmo assim darem-se bem, a única coisa que tem de ser parecida, que tem de tocar de alguma maneira, é exactamente aquilo que está mais dentro delas que tudo o resto,  é esta essência que temos aqui dentro que tem de corresponder com a dos outros. Quando não corresponde tu apercebeste disso no divórcio, na separação, na quebra, no afastamento, no fim de uma qualquer relação. E é esse exacto "apercebimento" que estraga tudo. Estraga os sonhos, as esperanças, a felicidade...

É uma merda isto só acontecer depois, depois de já termos aberto a porta, depois de já termos aberto o espírito, depois das dúvidas, depois das confusões, depois... Sempre depois.
 Porque se fosse antes, nada disto era uma merda.
 

Saturday, April 28, 2012

"Our history is for sale"


O telefone tocava e tocava e mais uma vez não me atendias. Já tinha percebido que nada significava para ti mas queria-o ter ouvido, queria ter-te ouvido a pronunciar cada som de cada letra dessa mesma expressão - não significas nada.

 Rio-me do que sei sobre mim, sobre as acções que pratico opostas aquilo que penso e sinto, sobre a constante mudança de opinião. O que pensei que fizesse todo o sentido ontem, hoje parece um absurdo. 
Tudo me parece um absurdo e é a este estado que volto de todas as vezes que não me atendes a merda do telefone!
 Sei o que estás a fazer, sei o que não me queres dizer, sei que não há significado por detrás da superficialidade dos nossos corpos. 
O Absurdo de saber que não me aguento na instabilidade e mesmo assim é a ela que, constantemente, me agarro...

Recebi uma mensagem tua e não a quero ler. O absurdo de saber que é inevitável que o faça.
Tu a dizeres que não te esqueceste de mim,
 eu a saber que é mentira que já nem te lembravas da minha existência. 
Tu a dizeres que vens já de seguida para perto de mim, 
eu com a maquilhagem borrada sabendo que vais demorar mais de duas horas a vir para teres tempo de dar uma desculpa à outra.
Eu a saber o absurdo de tudo isto, 
tu a quereres tudo na mesma, 
nós sem significado.

Eu a abrir-te a porta sem te dar um estalo, 
tu a dares-me um beijo com o mesmo sorriso de sempre. 
O mundo a continuar a girar e nós ali. Tu ficas, e eu sem dizer nada fico também, a vivermos a tua verdade e a minha mentira. A jogarmos o teu jogo por ter perdido o meu dado. 
 A transparência da minha mentira, a tua verdade distorcida, o meio-termo que eu tando odeio. A minha fé destruída, a minha esperança desmoronada, a minha vida crucificada. 
O tudo do nada, o patamar sem terreno, o sol sem luz, o carinho sem amor, as horas sem conteúdo, a merda dos momentos sem qualquer significado!
Eu a lembrar-me do que sou, 
tu a ires-te embora para ao pé da outra. 
O meu último sorriso, o meu último adeus, para ti a última vez de mim.
Eu a voltar a ser eu. 
Eu, 
eu , 
eu, 
eu, 
eu ,
 eu, 
e já não vai haver mais nada. 

A nossa história está à venda,
a um preço baratuxo,
 pois vale pouco, muito pouco.




I have a dream, and you?

     De volta a casa sentia-me presa. Depois de meses a viajar, a minha casa eram as pessoas. 
    Aqueles materiais à minha volta, aquelas paredes, aquela mesma paisagem todos os dias, faziam-me sentir presa. Queria ter ficado pela viagem, pelo movimento, pelas caras novas, pela aventura, pelo despreendimento de tudo o que existe sem ser nós mesmos.
   Se a merda do dinheiro não existisse, se o que nos alimentasse fosse a essência das pessoas e da natureza, se a humanidade fosse diferente, se houvesse mais esperança e genuinidade... 

   Ia trabalhar fervorosamente mais uns quantos tempos para puder voltar a viajar pois é este o meu caminho, é isto que me faz continuar, é isto que faz a diferença no que sou, é isto. Passo a passo sei que vou conseguir completar-me, não vejo o meu futuro de nenhuma outra maneira. 
   Convido-te a vir comigo, a partilhar o caminho, a vivenciar o presente, a pela primeira vez sentires o que é a verdadeira liberdade! Vais recusar o convite eu sei, a tua prisão já não é só exterior é já terrivelmente interior.

Uma prisão compartilhada, humanidade estragada.

Monday, March 26, 2012

Para sempre.

Os meus lábios secaram, e juntamente com eles o meu coração parou. Os meus olhos fixaram o nada, o meu nariz deixou de exercer as suas funções: não sentia ar a entrar. Os meus ouvidos eram os únicos que ainda tinham alguma actividade ouvindo ao longe alguém a chamar por mim. O meu cérebro continuava a trabalhar e obrigava-me a fazer interligações entre tudo: presente, passado, futuro, o que sou, o que os outros são, realidades, sonhos...
Aos poucos e poucos, depois do choque, a realidade voltava. E eras tu que estavas à minha frente. Toquei-te para ver se eras real. Eras. Abracei-te e senti uma felicidade indescritível. Fechava os olhos e abria e tu continuavas lá, tu inteiro, a tua voz a dirigir-se a mim, os teus braços a segurarem o meu corpo, tu e tudo o que é teu ali. 
Então, de corpo e alma, segredaste aos meus ouvidos: É para sempre.  

Queria ter reagido, ter dito alguma coisa, no entanto fiquei quieta à espera de acordar de um sonho. Apercebendo-me que era tudo real houve qualquer coisa no meu corpo que mudou: o meu coração palpitava a 100 à hora e cada vez mais rápido… 
Com o sorriso mais sincero que alguma vez tinha feito ia agradecer-te por existires, quando de repente a escuridão devorou-me por inteira. Desmaiei.   

Acordei no outro dia no hospital, tinha tido um ataque cardíaco. Vi-te a meu lado e foi como nada tivesse acontecido. Agarrei-te a mão e disse para mim mesma: É para sempre.
 Quando o médico veio para me explicar o que tinha acontecido eu já sabia, não precisava de explicações. O meu coração tinha renascido, tinha-me sido dada uma nova vida. De repente tudo me fazia sentido, mesmo o não sentido do sentido.
A felicidade, essa, que tantas vezes tinha sido uma ilusão era agora algo límpido, claro, irrefutável e puro.
Sem ses e sem dúvidas sabia que esta tinha sido a simplicidade que sempre tinha procurado. Já não via conceitos, palavras, materiais, realidades... O que via agora era todo o significado que estava por detrás de tudo isso... 

Olhei para os teus olhos e vi-me reflectida neles, senti que tu olhavas para dentro de mim, dentro da minha essência, para o que realmente sou...
(É esse o exacto significado de pureza e de vida que lutamos uma vida inteira para encontrar.)

Wednesday, March 14, 2012

Miscelânea da manhã


     Ouço o barulho frenético da cidade e espanto-me. Já não tinha lembrança de como era viver no centro de uma cidade, mesmo sendo esta pequena. 
    Acordei e levantei-me de um salto, não conseguia estar naquela cama se não conseguia dormir. 
   Sentia-me doente mesmo não tendo sintomas de nenhuma doença. Era uma sensação de alma débil e fraca, a vontade era de ficar o dia todo em casa a limpar e arrumar para não ter que pensar muito. De repente ouvi o elevador e lembrei-me de quando era criança ir sempre de escada, a correr, fosse qual fosse o andar e ficava toda contente quando chegava lá primeiro. Humano versus machine. Olhava pela janela para a rua e o dia estava cinzento como eu já não o via há algum tempo e fez-me sentir que não gostava de estar doente com o tempo cinzento mas ao mesmo tempo até que fazia sentido estar doente com o tempo cinzento. Se é para estar doente que seja assim com o tempo cinzento e não quando o sol brilha e a praia chama por nós. Já me tinha vestido e ia tomar o pequeno-almoço quando comecei a pensar que esta era a única refeição do dia que gostava de tomar sozinha. Juntamente com este pensamento começou-se a ouvir o cão da minha vizinha a ladrar, ela detesta que ele ladre a esta hora e por isso sorri ao saber que ela poderia ter acordado já chateada. Então fiquei à janela para ver se a minha previsão estava correcta, e lá veio ela com um jornal na mão, toda despenteada, já aos berros com o cão como se ele fosse uma criança mal comportada. O cão ficou a olhar para ela com um ar como quem diz: Já é dia é para levantar.
    Há muito que tentamos ao máximo esquecer as horas aos fins-de-semana, de modo a ter paz. Gostamos de, de vez em quando, deixar-nos ir e não fazer nada, e por isso ficamos a dormir até tarde, e por isso limpamos a casa quando podíamos sair, e por isso acordamos sem vontade de pensar. Não queremos lembrar-nos do que sabemos sobre o mundo, sobre a vida e sobre nós mesmos. A sobrecarga de toda a complexidade que somos faz-nos sentir exaustos de viver.  Mas claro que os cães não percebem isso, é dia é para ladrar, falar com outros cães, comer, brincar... e também dormir a sesta, com a total descontracção de quem o pode fazer, de quem não está preso a nada. E entretanto já tinha tomado o pequeno-almoço e já tinha feito a cama e começado a ter dores de cabeça. Olho outra vez lá para fora com a esperança que o tempo tenha mudado de cor mas ao vê-lo na mesma, cinzento, lembrei-me que a terra precisava de chuva e fiquei feliz por vê-lo cinzento. Mesmo que não pareça bonito é preciso que chova, é preciso que o céu chore para libertar  o que tem guardado há muito. E isso eu entendo perfeitamente, e então fico a olhar feita parva para o céu a dizer-lhe que pode chorar que ninguém está a ver, que irão sempre haver pessoas que sentirão as suas lágrimas e sorrirão. Porque a tristeza de uns é a felicidade de outros. O que é, simultaneamente, bom e mau. Mas tu céu não pensas e portanto isto não interessa para nada. De repente o céu fica ainda mais cinzento havendo uma pequena parte dele em que o sol brilha e isso faz-me pensar em algo que já sabia: existe sempre esperança, existe sempre esperança. 
    Começando a chover, assim do nada, sem ninguém estar à espera...

 Bem-vinda chuva, há tanto tempo que não te via...

(Uma das minhas vizinhas tinha acabado de estender a roupa, rio-me da correria dela para a apanhar...) 


Sunday, March 11, 2012

A única luz possível num caminho improvável e incoerente.



Quando te vi fiquei perplexa com o quanto tinhas mudado. Parecia que tinham tirado um peso de cima dos teus ombros. 
Quando me dirigiste a palavra fiquei sem saber o que dizer. Tinha passado imenso tempo desde a última vez que tínhamos posto os olhos em cima um do outro (entre outras coisas). E tendo passado tanto tempo estava com problemas em processar tudo o que fomos, para além de não conseguir perceber se ainda havia esperança para nós. 
   Havia qualquer coisa no teu sorriso que me impossibilitava de pensar a fundo, de chegar a uma conclusão sobre o que realmente queria.

   Para ti era como se o tempo não tivesse passado, para ti o tempo era moldável à tua vontade.
 Ora eu nunca tive esse poder, e o tempo era real aos meus olhos e aos meus sentidos, e portanto tudo isto era difícil para mim. 
Tu eras algo difícil de resolver.  Não por não saber o que quero, que também é verdade, mas por ver esperança sempre que os teus olhos olhavam nos meus. Essa esperança parecia-me uma miragem e baralhava-me o sistema nervoso, de modo que já não sabia qual era a minha posição, quais eram os meus princípios... Aquilo em que acreditava começou a desvanecer-se e só te via a ti como a única luz possível num caminho improvável e incoerente.

   Escolho-te a ti, com o medo estampado em cada passo que dou. Escolho-te a ti. 

Não me faças arrepender da minha escolha.

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