Tuesday, August 30, 2011

A sabedoria da velhice

Pensava todos os dias em como tinha chegado àquele momento, àquela não-vida.
Como é que não conseguia arranjar forças para sair de casa?
Como é que cheguei ao ponto de já nada me dizer nada?

Lembro-me da minha juventude, de ser, imensamente, feliz no mundo do álcool e das drogas.
Era um puto terrível eu, fiz a vida dos meus pais um inferno.
Mas do que mais me lembro desses tempos era da vivacidade que tinha. E pergunto-me, constantemente, para onde é que ela foi.

Quando somos novos temos uma tendência para achar que somos invenciveis e que a vida se deve curvar perante nós... Quando chegamos a velhos percebemos que durante todos estes anos fomos nós que nos curvámos perante a vida. Acabámos por ter acidentes, por quase matar pessoas, por terminas relações boas e magoar pessoas que nem queríamos.

Hoje sentado no meu sofá aos 75 anos apercebo-me que pouca coisa valeu a pena, que não soube colher as amizades certas, não soube aproveitar os pormenores da vida quando podia, não viajei o suficiente dentro de mim ao ponto de fazer e dizer coisas por impulso, coisas que hoje em dia me arrependo.

Fui um puto feliz, cresci e tornei-me um adulto detestável, um velho ainda pior.
Faltaram-me alicerces, faltou-me ter percebido quando devia ter parado de ser irresponsável e estúpido.
Não vi o sinal de STOP, e agora com 75 anos sinto falta de alicerces. Sinto falta de ter uma família e amigos a quem possa ligar de vez em quando, uma mulher que me ame incondicionalmente a meu lado, filhos de quem me possa orgulhar...

Não fiz nada decente na vida e foi preciso chegar a velho e estar reformado para perceber isso.
Para perceber que a única coisa que realmente importa na vida são as pessoas que nós amamos e vice-versa. Foi preciso chegar a esta idade para começar a ter juízo e começar a pensar, verdadeiramente, nas coisas.
Agora, que já não vale de nada. Agora, que a vida já passou por mim.

Pensava que tinha tido uma boa vida...
Os meus 75 anos dizem-me que nunca cheguei a viver inteiramente e completamente.


Acho que vou ligar ás minhas irmãs e pedir-lhes desculpa por ter sido um péssimo irmão, e vou pedir desculpa a ex-amigos e ex-namoradas. E vou esperar que haja alguém que tenha chegado a velho com o dom de perdoar e que me dê uma oportunidade de ser tudo o que nunca fui nestes anos que me restam. Uma pessoa melhor, um amigo verdadeiro, alguém que valha a pena lembrar.







Tuesday, August 23, 2011

23

Ficaram tantas coisas por dizer mas tantas...

Porém, há uma que preciso de deixar escrito: Eu perdoou-te.

Mesmo que aches que não fizeste nada, mesmo que não percebas bem porque te estou a dizer isto agora. Não interessa, nada disso interessa.
Estou tão farta de confusões, de ciúmes, de histórias passadas inacabadas e mal explicadas, de romances efémeros e de "cinzas e vinho", que tu não imaginas.
Quero ultrapassar isso tudo. Eu perdoou-te.

Preciso de olhar para a frente. Sem complicações, sem medos, sem receios, sem dúvidas. Preciso de te perdoar, de te esquecer e de seguir em frente. Preciso de fechar este capítulo com a consciência limpa de que fiz tudo o que sabia e podia, mesmo achando que tu não o fizeste. Sem ódio e sem orgulho a meter-se no meio. Preciso, urgentemente, de tornar este sentimento neutro, preciso, rapidamente, de voltar a sentir-me bem comigo e com a vida.
Consegues perceber isto?
Ao menos isto...



Acho que vou ficar por aqui, porque entre as mil coisas que não te disse, estas são as únicas que, realmente, te posso dizer.
Talvez devesse também pedir desculpa. No fundo, sei o quanto, sempre, fui importante para ti.
No entanto, a vida já me ensinou que há coisas que simplesmente
don´t were meant to be...

E pronto é isto.
Parabéns.

Monday, August 22, 2011

Ilusão

Primeiro de tudo estou mesmo muito feliz por ter voltado a escrever, espero que a partir de agora consiga voltar ao ritmo de escrita que sempre tive. Espero ultrapassar este break de inspiração que me deu.
A respiração de hoje foi esta:


As pessoas preferem viver na ilusão do que enfrentar a realidade.
É um facto.
Não conseguem ir atrás da felicidade na vida real, iludem-se para que a felicidade seja mais imediata, para que tudo seja mais fácil. Novidade: Não a encontrarão assim. Não é esse o caminho. Não vale a pena fechar os olhos àquilo que está mesmo à vossa frente, não vale a pena acreditar em mentiras, não se pode continuar a andar para a frente quando, lá no fundo, não vemos a luz no fim desse caminho quando, lá no fundo, nem acreditamos que aquilo terá saída.

A felicidade verdadeira está no fim do caminho mais complicado, no fim do labirinto mais comprido, está na simplicidade dentro da complexidade, está estampada em sítios improváveis, a felicidade está com aqueles que te merecem e que lutam por ti.
Este conceito que no fundo é o que toda a gente procura não é assim tão fácil de encontrar como alguns parecem acreditar. Mas mais: são poucos os caminhos que vão dar a ela e se não soubermos ver bem as placas e lê-las como deve ser podemos andar perdidos até ao fim da vida sem a encontrarmos. Sem encontrarmos a felicidade verdadeira. Sem espinhas, sem nódoas, sem buracos.

A felicidade, para além de estar nas pequenas coisas e em nós, existe quando lutamos por ela! E
não quando escolhemos a via mais rápida ou a mais cómoda, essa nunca irá levar a nada.

Era isso que eu queria que percebesses. Que não vale a pena iludires-te, que,
quando não queremos enfrentar a realidade, no fim, a dor é sempre a mesma e a felicidade é efémera.

Wednesday, June 8, 2011

Hoje deu-me para isto

A vida torna-se uma constante corrida atrás de coisas que nunca teremos, mas nós, aqueles que sonhamos, não sabemos viver de outra maneira.
Corremos atrás das coisas em que acreditamos é isso que faz parte de nós é isso que dá sentido à nossa vida. Existem sempre intervalos em que pensamos no que estamos estupidmente a fazer,e no que estupidamente acreditamos... Por vezes cansa lutar contra tudo e contra todos, por vezes apetece-nos desistir. Mas não, respiramos fundo olhamos em frente e não desistimos de mudar o mundo, aos poucos sei que fará a diferença nem que seja só no meu mundo, na minha cosciência. Está aí muita coisa, na consciência, há quem tenha bastante e quem não tenha nenhuma, é daqueles que são conscientes que eu procuro, todos eles. Para podermos ser todos amigos, fazer um grande grupo e lutar contra os restantes, como num desenho animado ou num filme, pois a vida não passa disso. Um filme com drama, acção, comédia e um pouco de magia que também faz falta. É assim que, ás vezes, acordamos, com vontade, muita vontade de fazer, escrever, agir e mudar mentalidades. É isso que mais faz sentido, o sentido está naquilo em que acreditamos e eu sinto falta de mais alguéns que acreditem comigo para que tudo faça um pouco mais de sentido. Normalmente conto histórias dos outros, a minha fica sempre escondida, é sempre assim que me vejo é isso que gosto de partilhar, nada. E ao mesmo tudo, os pensamentos, os sonhos, a fé, a filosofia por detrás do corpo. Filosofias... É importante filosofar, nunca pensei que fosse tanto. Tenho coisas a fazer, coisas que não me completam e eu tenho de fazê-las. é uma treta certas situações da vida... Mas acredito que um dia tudo vai fazer sentido. Acredito piamente nisso.

Texto escrito sem voltar a ler e quase sem apagar.
Faz falta sinceridade e transparência neste mundo.

Thursday, May 19, 2011

At last...Just wondering

Antes de mais nada vou só referir a tristeza que sinto por estar a escrever cada vez menos...
Pretendo melhorar daqui para frente, vamos lá ver se a vida ajuda. Aqui está o texto de hoje (que se enquadrava melhor no Everything about nothing mas pronto):


Mentia-me a mim própria todos os dias. Achava que ia conseguir realizar todos os meus sonhos.
Há mentiras que são necessárias para conseguir-mo-nos levantar todos as manhãs.

Naquele dia em especial sentia-me pesada, como se guardasse um segredo que não pudesse partilhar com ninguém. Um segredo demasiado pesado para ficar cá dentro muito tempo. Esse segredo desapareceu no dia seguinte quando o sol brilhou e eu apercebi-me que os segredos da natureza são mais significativos do que qualquer outra coisa. Filosofias à parte é a Natureza que realmente é grande, que realmente importa. Porém, as filosofias já fazem parte da minha vida.
Pensar tornou-se tão essencial como sentir, para meu desagrado.

Um dos meus maiores sonhos era pensar menos e sentir mais.
Acho que esse continuará a ser um dilema de todos aqueles com alma filosófica, a eterna questão entre pensar e sentir...
A questão entre viver e achar que se sabe viver, estar vivo e achar-se meio-morto ou estar meio-morto e achar-se bem vivo, entre ser e fingir que se é...

A palavra-chave para isto e para tudo na vida é simples: Equilíbrio.
As verdadeiras perguntas são: Como equilibrar? 50% pensamento 50% emoções e sensações? A vida poderá ser regida por percentagens? A vida faz algum sentido se for assim?

Friday, April 22, 2011

Tornando-se irrespirável

Ouvia-te mas não sabia o que fazer.
Esta minha parte meio masculina de não saber o que fazer com as emoções negativas expostas é uma treta. E portanto estavas tu no teu quarto a chorar e eu muito quieta a deprimir com cada soluço teu e a desejar ardentemente que parasses de chorar.

Naquele momento apetecia-me deitar as culpas para cima de toda a gente, até dos culpados da minha tristeza e não da tua.
É mais fácil confortar as pessoas quando nós estamos bem, quando estamos tão em baixo como os outros não há força que chegue. Tantas vezes me senti sozinha e lidei com essa solidão sozinha. Outra coisa meio masculina. Agora tu já não sabes o que fazer e é suposto eu te indicar o caminho... Como queres que te indique o caminho se eu própria não sei qual é o meu?

Está-se a tornar quase irrespirável este ambiente de tristeza em que vivemos.
Tu não sabes o que fazer à vida e continuas em baixo, eu não sei o que fazer nem da tua nem da minha vida e tento continuar ao de cima para que consigamos, ao menos, sobreviver ao dia-a-dia.

Passar 24 horas contigo é um suplício, vejo nos teus olhos a tristeza toda concentrada das feridas do passado das quais não te consegues livrar. E eu não estou em condições para te apoiar. Primeiro nunca fui uma pessoa lá muito emocional e segundo esgotei os meus argumentos para te acalmar. Existe um terceiro: não sei ser uma boa apoiante em silêncio, sei que ás vezes basta isso, mas considero que o nosso silêncio nunca será muito bom. (Está cheio de coisas que não foram ditas, que não podem ser ditas, que não devem ser ditas...)

Sinto-me mal todos os dias. Por mim, por ti e por nós.
Vivemos na instabilidade, numa réstia de esperança que está presa por um fio.

Gostava de ser a pessoa que desejavas mas não saí como planeado. É assim, a vida é mesmo fodida.
Não planeamos nada do que nos acontece, do que vai acontecendo. Podemos querer isto ou aquilo e a vida dá-nos aquilo ali ao lado só para chatear.

Custa-me...
Vou-te dizer o que me custa: custa-me que não tenhas forças para lutar contra essa tua tristeza e mágoa. Custa-me porque eu esforço-me todos os dias para arranjar forças para mim e vou conseguindo aos poucos, e tu sempre a deitar abaixo o que eu tento construir.
Não fazes de propósito, eu sei, no entanto custa-me.

Não te consigo confortar. Ainda por cima agora que tenho dificuldade em confortar-me a mim própria.
Desculpa lá.

A vida é mesmo fodida.

Esta minha parte masculina dá cabo de mim. Ou será a feminina que não se enquadra em mim?

Saturday, February 26, 2011

Sexos

Olho para trás para a minha vida e nada me parece normal, casei com uma mulher e tive dois filhos porém, nem sempre me sinto bem neste papel de pai e homem de família. É horrível a pressão de ter que controlar as contas da casa, fazer jardinagem ou aqueles trabalhos mais pesados que são sempre realizados pelos homens. Nunca me habituei muito a isso e a Sónia sabe que eu não sou lá muito normal.
Gosto de mulheres sim, a atracção só existe por elas, no entanto não me sinto um homem homem. Há muita coisa que me faz chorar e adoro decorar a casa com a Sónia. No sexo até que gosto de ficar por baixo e não gosto de ter o poder sobre todas as coisas, gosto que a Sónia me leve onde ela quiser para fazer o que ela escolher, gosto de ser levado por ela.


Olho para trás e sei que a minha vida não foi muito normal.
Há uns anos fiz uma operação para ser do sexo masculino. Não era que eu me sentisse mal com o meu corpo mas apaixonei-me por uma mulher hetero e pensei que aquela seria a única maneira de a conquistar. O problema é que fiquei um homem não muito bem parecido e arrependi-me logo de ter feito a operação. Não me sinto muito bem com o meu corpo e a minha vida não tem sido muito fácil estou a pensar em fazer outra operação para mudar de novo para um corpo feminino...


Olho para trás e vejo a vida confusa que tive. Juntei-me com um homem o ano passado porque queria ter filhos porém, não lhe escondi que era lésbica. Ele disse que não se importava e aceitou ter filhos comigo. Nós até que nos dávamos bem só que conheci a Mafalda e houve logo uma química entre nós.
O Filipe queria continuar comigo mas eu que já estava grávida disse-lhe que queria fazer a minha vida ao lado da Mafalda, ele acabou por aceitar e foi-se embora.
As coisas com a Mafalda não são um mar de rosas mas existe amor e é isso que me faz lutar todos os dias contra a discriminação que ainda existe na sociedade.

Olho para trás e sorrio, temos de nos rir das coisas mais ridículas que vão acontecendo não podemos deprimir com a vida se não é que não estamos aqui a fazer nada.
Passei a minha juventude atrás de mulheres como qualquer rapaz da minha idade e até que não me dei nada mal, mas achava estranho certas sensações que tinha quando estava perto de homens de quem gostava/simpatizava. O que sentia era o mesmo que sentia com as mulheres. Tentei perceber se seria um problema hormonal e pesquisei sobre o assunto. Descobri que era bi aos 20 e poucos anos. No inicio foi um choque porém, depois tudo começou a fazer mais sentido e hoje em dia até que lido bastante bem com a situação e é engraçado ter tanto por onde escolher. A sério é muito engraçado.

Olho para trás e constato que toda a minha vida me senti deslocado. Não me sinto bem entre os homens, parece-me um mundo completamente diferente do meu.
Sempre tive mais amigas do que amigos mas por vezes também me é difícil encontrar o meu lugar no meio delas. E apercebi-me desde cedo que havia ali qualquer coisa que não era muito normal em mim.
Dediquei a minha vida a estudar as pessoas, mais especificamente as diferenças entre sexos e cheguei à conclusão que existe pelo menos 5% da população que se sente deslocada, ou sentem que não são do sexo que deveriam ser ou, uma parte mais pequena, percebe que não pertencem nem a um lado nem a outro. E aqui me insiro eu e a estas pessoas eu chamo o 3º sexo. Somos poucos mas existimos.

Podemos ter uma atracção pelo sexo feminino ou masculino e não nos considerarmos totalmente homens ou mulheres. Sentimo-nos como se conseguíssemos ver ambos os lados e não nos sentíssemos a 100% em nenhum.
Esta ínfima parte da população parecendo que não, são pessoas mais equilibradas, percebem mais e dão-se melhor com a vida que o resto da população. Conseguem ter uma perspectiva diferente das coisas, uma mais abrangente.
O 3º sexo é a junção dos 2 sexos, criando pessoas, a meu ver, estranhas claro mas, muito mais completas. Temos uma visão um pouco mais perto de ser a ideal.
A meu ver, somos pessoas melhores.

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