Friday, March 9, 2012
Estado de alma:
Encontrava-me num estado de sonambulismo apesar de estar acordado, sentia que estava num género de sonho em que a realidade não fazia sentido. Não sabendo bem se a realidade era na verdade a minha vida ou se era aquele género de realidade que presenciava naquele exacto momento em que tudo me parecia vindo de um filme qualquer, pois ás tantas já nada me fazia sentido. Os meus gestos eram tremidos, não conseguia estar quieto, a minha cabeça estava pesada, as minhas palavras saiam todas cheias de mel e tinha sempre um sorriso na boca como se tivesse snifado alguma coisa. Olhava em volta e o mundo parecia diferente do normal,ouvia dentro da minha cabeça duas vozes, como se fossem os bonequinhos do diabo e do anjo tal e qual como se vê nos filmes. Ambos me puxavam para lados diferentes e não conseguia distinguir o bom do mal, e mesmo que os distinguisse não sei se não escolheria o mal só para chatear. Entrei em parafuso, uma guerra comigo mesmo, não conseguia distinguir a verdade da mentira, a realidade da ficção. E tinha esta impressão de que aquele momento era tudo o que interessava, fosse mentira, verdade ou assim-assim. Aquele instante onde me sentia estranho, e no entanto vivo, era real. Uma certa realidade paralela porém, era real e só isso importava. A verdade é um conceito do passado, as verdades estão em todo o lado e ao mesmo tempo em nenhum. A mentira nem sempre é o contrário da verdade, por vezes é uma verdade distorcida. Não deixa de ser uma verdade. A realidade existe para quem se considera real. Eu, a minha pessoa, este ser que se encontra aqui, neste momento, não é real. Mas é ao mesmo tempo puro e de certa maneira tem o seu lado real. Porque estou vivo, e não preciso de ser realmente verdadeiro para estar vivo. Basta mexer-me e respirar. Isto é a realidade? É só parte dela. Isto é a verdade? Podia ser mas a verdade não existe e portanto se eu fosse a verdade eu não existiria. E por isso sou a mentira no seu estado mais linear, que é o mesmo que dizer que sou alguma coisa que não sei explicar, provavelmente uma realidade distorcida.
Thursday, March 1, 2012
?
O que é que fazemos quando perdemos a verdade? O que fazer quando o tempo já deu tantas voltas que já não sabemos em que época é que estamos e quem é que ainda está vivo? O que fazer se já nada faz sentido? E o sentido que conheciamos também se perdeu no labirinto da vida? O que fazer?
Eu grito pela verdade mas de todas as vezes aparece-me alguém a dizer que ela não existe.
Eu grito para que o tempo páre de me pregar brincadeiras mas ele ri-se na minha cara e continua a gozar comigo sem piedade.
Eu grito pelo sentido mas não sei para onde me virar para chamar por ele, não sei para onde olhar nem sei como o chamar.
Só sei que sinto falta dele, assim como sinto falta da verdade que sempre foi nossa e do tempo que preenchemos de boas memórias apesar de não as termos sabido preservar.
Monday, February 13, 2012
Lutar pelo sentido e significado
Estava sentada na esplanada do costume, a ver o mar como fazia todos os domingos, pedi um sumo de laranja natural e fiquei a olhar para as ondas a bater na areia sem ligar ao meu telemóvel que de um em um minuto vibrava.
Comecei a pensar em como a vida era irónica e em como se tinha tornado muito diferente daquilo que eu há 20 anos tinha sonhado. Não era que fosse uma má vida, longe disso, era só radicalmente diferente do que eu tinha desejado para mim quando era miúda.
Olhava para o mar e captava compreensão, sei que o mar não fala nem ouve mas tinha sido a olhar para ele que tinha tomado as decisões mais difíceis da minha vida. Quando fiquei grávida foi aqui que decidi que ia ter o filho sozinha, quando o meu pai se matou foi aqui que decidi que não me ia culpar a mim pelo acontecido, quando tive que ser operada foi aqui que decidi que não ia avisar ninguém até já estar fora de perigo...
E de todas as decisões não me arrependi de nenhuma.
Naquele dia estava mergulhada em pensamentos. Tinha há pouco tempo deixado de falar com uma amiga e queria decidir se valia a pena lutar pela nossa amizade.
Na vida há muita coisa que vai deixando de valer a pena com o decorrer dos anos e por vezes é difícil perceber aquilo por que ainda faz sentido lutar.
Tinha lutado por poucas coisas na vida, por sorte e porque poucas vezes me fazia sentido lutar por aquilo ou por aquela pessoa...
Depois de uma longa conversa com o mar percebi que por esta amizade não fazia sentido lutar e que talvez nunca tivesse tido qualquer tipo de significado.
Antes de sair da esplanada fixei o mar, o meu confidente, com os meus grandes olhos pretos e conclui o meu raciocínio:
Para uma coisa ter significado tem de fazer sentido e se tem significado e faz sentido é então uma obrigação nossa lutar por isso, pois o sentido e o significado não se encontram em todo o lado aliás, raramente se encontram e por isso é importante lutar por mantê-los vivos em nós e ao nosso redor.
Pelo menos enquanto temos forças.
E despedi-me daquela enorme quantidade de água com um sorriso e uma promessa de regresso.
Para ali voltaria sempre...
O sentido e o significado transbordam na natureza e, principalmente, no mar.
Thursday, February 2, 2012
Imaginação
Nós, humanos, temos este dom (eu
digo que é um dom) de imaginar, de criar na nossa cabeça tudo e mais algumas
botas.
Então imaginamos uma carroça à nossa frente e nós vestidos de alta
realeza a entrar nela tendo atrás de nós um castelo daqueles dos
filmes. Sendo tudo aquilo real na nossa cabeça, tão real que sentimos que aquele castelo
faz parte das nossas memórias.
Imaginamos uma criança a dar-nos a mão e a
sermos avós ou avôs quando nunca tivemos filhos.
Imaginamos uma paisagem
lindíssima por detrás de uma montanha e nós com a câmara fotográfica a tirar
uma foto espectacular que vai ganhar prémios internacionais.
Imaginamos Nova
Iorque com todos os seus arranha-céus a tocar nas nuvens e o caos de pessoas,
carros e barulhos estridentes que é característico da cidade.
Imaginamos que
somos um peixe e que não respiramos ar aliás, morremos se não estivermos na
água. Imaginamos que realmente existe um Deus, somos nós próprios com todas os
nossos defeitos e imperfeições.
Imaginamos um mundo completamente diferente do
que aquele que conhecemos, vivendo memórias jamais experienciadas, sentido o
que nunca nos fez sentido, nos emocionando com coisas superficiais que jamais
nos emocionariam, conhecendo o que nunca poderemos conhecer, viajando a locais
que já não existem ou talvez nunca tenham existido…
É este o poder da imaginação.
É este o poder da imaginação.
E é por isto que digo que é um dom,
um imprescindível que coloca magia na nossa vivência, dando-lhe um brilho
diferente.Um dom que nos permite ser o que nunca fomos, viver o que, lá no
fundo, queríamos, intensamente, viver.
Fica na imaginação aquilo que temos medo
de fazer, cobardia para construir, receio de dizer ou ser...
A imaginação faz-nos sentir melhor com a vida que levamos, que
muitas vezes fica aquém do que sempre imaginámos que seria.
Lições leva-as o vento
Tenho problemas com o padrão de
vida da sociedade porém, por vezes, parece-me que o problema não é da sociedade
e sim de uma espécie de destino que anda a gozar connosco e mete-nos à frente
ostras sem a pérola lá dentro. Parece-me que quer-nos dar uma lição qualquer
para que estejamos preparados quando o “jogo” se inverter.
É engraçado como, apesar de tudo,
somos capazes de chegar à hora e fazer as mesmas asneiras pelos outros que já
vimos outros fazerem por nós. E é bem capaz de só nos apercebermos disso quando
já é tarde demais, quando a pérola já está incrustada no nosso coração.
A lição que o destino nos quer passar nunca realmente passa! É como
quando os nossos pais nos dizem para não fazer algo que é perigoso, nós ouvimos
e até dizemos que vamos ter cuidado mas enfiamo-nos de cabeça na mesma porque
esperamos que no final tudo corra bem e que fiquemos com uma grande história
para contar!
As lições, na verdade, não servem de nada. Acabamos sempre por,
mais tarde ou mais cedo, bater na mesma com a cabeça na parede.
E sabem uma coisa? Ainda bem! Porque quer
dizer, de tanto bater há-de furar! E aí vai ter mais valor do que se tivéssemos
ido lá com o berbequim. Disso podem ter a
certeza.
Velhice
No decorrer da vida vamos
misturando pessoas, situações, locais, expressões, sensações, sentimentos e
emoções. E lá mais para o final dela baralhamos tudo, já temos memórias a mais no
sistema e as coisas vão-se juntado todas para libertar mais espaço. Não somos assim tão diferentes de um
computador.
Mas essa junção causa problemas de
processamento, já não sabemos bem o que sentimos em determinado tempo com
determinada pessoa, o nome daquele local que odiámos já foi misturado com
aquele local que um amigo disse que era perigoso, as memórias do que éramos
debatem-se com aquelas que sempre pensávamos que seriamos. Isto leva-nos a uma
vida cheia e pouco espaço no disco rígido para processarmos a informação como
deve ser. Chegamos a velhos com aquela sensação que o espaço se está a esgotar
e o que já foi vivido há muitos anos facilmente se confunde com o presente.
Não digamos que os velhos são
pessoas acabadas e que já não sabem o que estão a dizer. Os velhos são pessoas
completas que já viveram tanto, já sonharam tanto, já imaginaram tanto, já
experienciaram e sentiram tanto que têm o disco rígido cheio, e por isso
baralham tudo e misturam tudo.
Imaginação, realidade, memórias,
recordações, sentimentos, pessoas, locais, nomes, objectos, paisagens, viagens,
tempo… É muita coisa. E é isto que
todos deveríamos ter na cabeça para que quando chegarmos a esta idade não
tenhamos raiva de nós próprios e, principalmente, para que agora, neste momento
presente, saibamos respeitar quem já viveu tanto que tem o disco rígido cheio e
por isso troca o teu nome, e por isso troca o parentesco que tem contigo, e por
isso fala-te da sua infância ou adolescência como se fosse ontem mas não se
lembra do que lhe disseste há umas horas atrás...
Ser
velho não é ser incapaz, esquecido, menos inteligente ou incoerente, é, acima de
tudo, ser uma pessoa cheia, que tem mil e uma coisas para contar e já pouco
para viver.
Um livro aberto sempre pronto para
contar a sua história, a história da sua vida, a história do seu “eu” em todas
as vertentes, todas as etapas que alcançou, todos os abismos que enfrentou,
todos os sonhos que foram realizados e aqueles que, infelizmente, ficaram
apenas no pensamento e no coração.
Nós,
que adoramos ler livros e ver filmes e séries de vidas humanas não damos a importância
devida a estes livros ambulantes virando costas a vidas reais e agarrando-nos à
ficção, da qual já não sabemos viver sem.
Sunday, January 29, 2012
Alma
A Alma perdeu-se nas curvas da vida. Mas ela não sabe o quanto é essencial para tudo. É essencial para que o universo resulte, para que tudo faça sentido, para que as estrelas possam ser pedaços de esperança, as rochas pedaços de alegria, o sol o grande amor... É preciso Alma, é preciso que ela volte para casa, que bata à porta devagarinho e vá entrando outra vez, é preciso que ela se deite na cama dela e sorria outra vez.
Ela tem de voltar, ela tem de voltar a gritar comigo por a desprezar, ela tem de vir dizer-me segredos aos ouvidos e fazer do meu apoio quando já não há mais nada.
Eu não te quero a ti que já tanta dor me provocaste, não vos quero a vocês que nunca entendi nem suportei, não quero mais ninguém nem nada por mais importância que tiveram e que tenham ou por mais que gostassem de ter e não têm. Nada disto me interessa, nada disto sou eu, nada disto é a minha essência, nada disto me move...
Mas, Alma, tu sim! Tu és tudo o que realmente importa, és só tu que me interessa que voltes, é só a ti que quero, por agora és só tu a minha única e grande necessidade!
Preciso urgentemente que voltes e me digas onde errei, qual foi o caminho que escolhi e não devia ter escolhido, quem é que devia manter e quem devia mandar embora? Que tipo de trilhos devo eu caminhar sobre, que tipo de pessoa devo continuar a ser e o que devo excluir para todo o sempre?
Se não... Receio que vou apodrecer a olhar para o pôr-do-sol, à porta do meu coração, à tua espera...
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